terça-feira, 23 de setembro de 2008

Fora-do-tempo

Os flocos giram ao redor do globo.
Diante dos olhos da minha memória, em cima da escrivaninha de Mademoiselle, minha professora até a classe dos maiores, a do sr. Servant, se materializa a pequena bola de vidro.
Quando nos comportávamos bem, tínhamos o direito de virá-la e segurá-la na palma da mão até a queda do último floco ao pé da torre Eiffel cromada. Eu não tinha sete anos e já sabia que a lenta melopéia das pequenas partículas algodoadas prefigura o que ressente o coração durante uma grande alegria. A duração desacelera e se dilata, o balé se eterniza na ausência de choques e, quando o último floco pousa, sabemos que vivemos esse fora-do-tempo que é a marca das grandes iluminações. Em criança, volta e meia eu me perguntava se me seria dado viver instantes semelhantes mantendo-me no centro do lento e majestoso balé dos flocos, quando era arrancada do sombrio frenesi do tempo.
Será isso, sentir-se nua? Mesmo com todas as roupas tiradas do corpo, o espírito continua, porém, carregado de adereços. Mas o convite do sr.Ozu provocara em mim a sensação dessa nudez total que é a da alma sozinha e que, nimbada de flocos, era agora para o meu coração como que uma deliciosa queimadura.

Olho para ele.
E jogo-me na água negra, profunda, gelada e deliciosa do fora-do-tempo.



Capítulo do livro: A elegância do ouriço de Muriel Barbery.

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